
A “Folha de São Paulo”, um dos principais jornais do país, publicou nesta terça-feira (11) um artigo de autoria do presidente da Eletronuclear, Raul Lycurgo Leite, em que ele defende a retomada das obras da Usina Angra 3. No texto intitulado “Quem vai pagar a conta de Angra 3”, Lycurgo repercute os resultados do estudo feito pelo BNDES, que demonstram que os custos para retomar à obra são semelhantes aos de desistir dela. Ele também argumenta sobre benefícios ambientais, sociais, políticos e econômicos que a usina pode trazer ao país e menciona os responsáveis pelo pagamento em caso de continuidade ou desistência da obra. A decisão acerca do empreendimento está prevista para a próxima reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em outubro.
Do ponto de vista ambiental, o presidente da empresa lembrou que estamos em um contexto de mudanças climáticas e que a energia nuclear não emite gases de efeito estufa. Além disso, embora os custos para construção de uma usina sejam altos, sua vida útil é bastante longa, como demonstram usinas antigas ainda em operação em outros países.
“Os empreendimentos garantem energia de base, firme, segura, constante - independem de fatores naturais - e limpa, sem emissão de gases do efeito estufa, por longos anos. Algumas por até 80-100 anos, como já miram os órgãos reguladores dos Estados Unidos, onde existem atualmente quase 100 centrais nucleares em operação”, salienta o artigo.
Pelo lado social, a obra e, posteriormente, a operação da usina podem gerar empregos e renda para a região em seu entorno, além da própria energia ser proveniente de uma fonte regular e constante, como já mencionado. Politicamente, o projeto posiciona o Brasil de forma estratégica no cenário global, devido ao investimento em desenvolvimento tecnológico.
Mas o principal argumento do artigo de Lycurgo é o financeiro. Isso porque muitos investimentos já foram feitos não apenas na construção civil, mas também em equipamentos. Além disso, seria necessária investir ainda mais dinheiro no descomissionamento da usina, incluindo rescisão de contratos e devolução de benefícios já concedidos, um valor que precisa ser pago a curto prazo e sem qualquer perspectiva de retorno. A continuidade da obra, por sua vez, além de garantir que haverá o retorno do investimento, poderia ser liquidada em um prazo de 16 a 20 anos, já utilizando ganhos do funcionamento da própria usina.
Além do prazo e da semelhança entre os dois valores – R$ 23 bilhões para prosseguir e R$ 21bilhões para desistir -, há diferenças em relação a quem arcaria com as contas no caso de cada uma das decisões tomadas.
“Caso a decisão seja pela continuidade, a própria Eletronuclear será a responsável pelos custos, através de empréstimos obtidos a juros de mercado, e pagos, pelos próximos 16-20 anos, com a receita da energia gerada por Angra 3. Por outro lado, não há recursos disponíveis na Eletronuclear para os pagamentos a curto prazo da desistência, ou seja, o custo de R$ 21 bilhões seria suportado pelos acionistas – ENBPar/União e Eletrobrás - e, hoje, o controlador da Eletronuclear é a ENBPar, empresa pública da União”, detalha o texto.
Para o presidente da Eletronuclear, o artigo não deixa dúvidas sobre a melhor decisão a ser tomada no CNPE: “a pior obra de infraestrutura é a obra paralisada; obra de infraestrutura planejada e iniciada deve ser concluída”.